domingo, 5 de dezembro de 2010

Exú




EXU: a simbologia 

Ao tratarmos da simbologia de Exú, temos que nos remeter a várias histórias que encontramos nos odus ou signos de interpretação das caídas dos búzios no jogo de Ifá. Estes odus nos trazem várias informações a respeito de todos os Orixás e, quando associados os 16 odus principais, transformam-se em 256 odus, cada um contendo um itan, ou lenda; o conhecimento destas 256 histórias está em poucas mãos e, muitas vezes, estão tão mudadas que sua interpretação é bastante complicada, portanto me limito aos textos encontrados em livros que, quando não vem acompanhado de uma interpretação antropológica, pelo menos permitem uma interpretação pessoal, onde busco, de maneira lógica, extrair do texto uma simbologia que traduza a mensagem. 

O primeiro texto ao qual me remeto está em SANTOS (1986) e diz: 

Exú Yangí, o Exú ancestre ou Exú-Agbá, o Exú pé do Okotô, Rei de todos seus decendentes. Exú Obá, é o Pai-ancestre mas ao mesmo tempo, o primeiro nascido. Esse significado de Exú está expresso no seu apelativo Igbá-Kéta, a terceira pessoa, o terceiro elemento (textualmente, a terceira cabaça). Seu caráter de descendente está expresso em muitos mitos; particularmente esclarecedora é a história Atórun d'órun Exú, do Odú Ogbé hunle, sobre o nascimento e a propagação de Exú no Aiyé e nos nove espaços do Orun. Esse signo apareceu para Orumilá quando Ele foi consultar os Babalawô, no dia em que Ele foi requerer uma criança a Orixá Igbô-wugi (Orixalá). 

A história conta que nas remotas origens, Olodumaré e Orixanlá estavam começando a criar o ser humano. Assim criaram Exú, que ficou mais forte, mais difícil que seus criadores: (...). Olodumaré enviou Exú para viver com Orixalá; este colocou-o à entrada de sua morada e o enviava como seu representante para efetuar todos os trabalhos necessários. Foi então que Orumilá, desejoso de ter um filho, foi pedir um a Orixalá. Este lhe diz que ainda não tinha acabado o trabalho de criar seres e que deveria voltar um mês mais tarde. Orumilá insistiu, impacientou-se querendo a qualquer preço levar um filho consigo. Orixalá repetiu que ainda não tinha nenhum. Então perguntou: "Que é daquele que vi à entrada de sua casa?” É aquele mesmo que Ele quer. Orixalá lhe explicou que aquele não era precisamente alguém que pudesse ser criado e mimado no Aiyé. Mas Orumilá insistiu tanto que Oxalá acabou por aquiescer. Orumilá deveria colocar suas mãos em Exú e, de volta ao Aiyé, manter relações com sua mulher Yebiirú, que conceberia um filho. Doze meses mais tarde, ela deu à luz um filho homem e, porque Oxalá dissera que a criança seria Alagbará, Senhor do Poder, Orumilá decidiu chamá-la Elegbará. Assim, desde que Orumilá pronunciou seu nome, a criança, Exú mesmo, Respondeu e disse: 

Mãe, mãe 

Eu quero comer preás. 

A mãe respondeu: 

Filho, come, come Filho, come, come 

Um filho é como contas de coral vermelho Um filho é como cobre, Um filho é como alegria inextinguível. Uma honra apresentável que nos representará depois da morte. 

Então Orumilá trouxe todas as preás que pode encontrar. Exú acabou com elas. No dia seguinte, a cena se reproduziu com Exú pedindo e devorando todos os peixes frescos, defumados, secos etc. que existiam na cidade. No terceiro dia, Exú quis comer aves. Gritou e comeu até acabar com todas as espécies de aves. E sua mãe cantava todos os dias os versos acima e ainda acrescentava: 

Visto que consegui ter um filho, 

O que acorda e usa duzentas vestimentas diferentes, 

Filho, continue a comer. 

No quarto dia, Exú disse que queria comer carne. Sua mãe cantou como de hábito, e Orumilá troxe-lhe todos os animais quadrúpedes que pôde achar: cachorros, porcos, cabras, ovelhas, touros, cavalos etc., até que não ficou um só quadrúpede. 

Eu quero comê-la! 

A mãe repetiu sua canção: Filho, come, come, filho, come, come, e foi assim que Exú engoliu sua própria mãe. 

Orumilá, alarmado, correu a consultar os Babalawô, que lhe recomendaram fazer uma oferenda de uma espada, de um bode e de quatorze mil cauris. Orumilá fez a oferenda. 

No sexto dia depois do nascimento, Exú disse: 

Pai, pai 

Eu quero comê-lo! 

Orumilá cantou a canção da mãe de Exú e quando este se aproximou, Orumilá lançou-se em sua perseguição com a espada e Exú fugiu. Quando Orumilá o reapanhou, começou a seccionar pedaços de seu corpo, a espalhá-los, e cada pedaço transformou-se em um Yangí. 

Orumilá cortou e espalhou duzentos pedaços e eles se transformaram em duzentos Yangí. Quando Orumilá se deteve, o que restou de Exú ergueu-se e continuou fugindo. Orumilá só pode reapanhá-lo no segundo órun e lá Exú estava inteiro de novo. Orumilá voltou a cortar duzentos pedaços que se transformaram em duzentos Yangí. Isto se repetiu nos nove Orun que ficaram assim povoados de Yangí. No último Órun, depois de ter sido talhado, Exú decidiu pactuar com Orumilá: este não devia mais persegui-lo; todos os Yangí seriam seus representantes e Orumilá poderia consultá-los cada vez que fosse necessário enviá-los a executar os trabalhos que Ele lhes ordenasse fazer, como se fossem seus verdadeiros filhos. Exú assegurou-lhe que seria ele mesmo quem responderia por meio dos Yangí (pedaços de laterita) cada vez que o chamasse. Orumilá perguntou-lhe sobre sua mãe que havia sido devorada. Exú devolveu sua mãe a Orumilá e acrescentou: 

Orumilá deveria chamá-lo Se ele queria recuperar a todos e cada um dos animais e das aves que ele tinha comido sobre a terra; ele (Exú) os assistiria para reavê-los das mãos da humanidade. 

Orumilá e Yebiirú reinstalaram-se na cidade de Iworo, e a partir desse momento ela começou a dar à luz muitos filhos de ambos os sexos. A história continua com o translado para Ketu, a invocação de Exú para proteger da guerra, a vinda de Exú do Órum para os defender, a volta a Iworo, ensinando-lhes Exú como preparar e sagrar seu "assento", transferindo-lhe seu Agbará que executaria todos os "trabalhos" que lhe fossem solicitados e acaba por uma saudação, um oriki alusivo a suas características : 

Exú come cachorros, come porcos. Bará anda senhorilmente, balançando-se para a direita e para a esquerda. 

Todos os atacantes se afastam 

Quando ele vem chegando senhoril e sutilmente. 

Este é um texto bastante vasto e a autora se limitou a sintetizar a informação ressaltando os pontos importantes e dando ênfase às falas. Ao transcrevê-lo não coloquei os termos e frases escritas em Yorubá devido a uma dificuldade gráfica e a total ausência de necessidade de tais termos, me limitando a colocar suas traduções. Dito isto temos de esclarecer um fator importante, uma interpretação da tradução do número duzentos e o que "restou de Exú". Todo número inteiro acrescido de "um" (1), no dialeto Yorubá corresponde ao infinito ou a uma grande quantidade de coisas ou seres, portanto aqui temos Exú, não dividido em duzentos pedaços, mas sim em uma quantidade infinita de outros Yangí nos nove espaços do Orúm. Fixando-nos somente no número duzentos e o "um" restante, teremos o início, a continuidade em um outro espaço. O "um" é o princípio de tudo, apesar de ainda não manifestado, é dele que emana toda manifestação; é também símbolo da verticalidade, do falo ereto, do bastão vertical que Exú carrega: o Ogó; e o homem ativo, é o ser já criado, sem o sopro que lhe dá a vida e assim a manifestação, a dualidade. E, nesta história, o "um" ao ser dividido em duzentas partes se desenvolve e é dividido até o infinito, não esquecendo de repassar o um, a origem, ao espaço seguinte do Orúm para que seja repetida a operação, até que Exú chega a presença de Orumilá no nono e último espaço e faz o acordo que o colocará como "escravo" de todos os Orixás.










foto: Pierre Vreger

texto: extraido da monografia de graduação: "A Cerâmica e o Barro no Candomblé: O ORIXÁ EXU", de minha autoria.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Minha mãe Oyá!!!


Oyá ganha de Obaluaiyê o reino dos mortos
Certa vez houve uma festa com todas as divindades presentes. Omulu-Obaluaiyê chegou vestindo seu capucho de palha. Ninguém o podia reconhecer sob o disfarce e nenhuma mulher quis dançar com ele. Só Oyá, corajosa, atirou-se na dança com o Senhor da Terra.
Tanto girava Oyá na sua dança que provocava vento. E o vento de Oiá levantou as palhas e descobriu o corpo de Obaluaiyê. Para surpresa geral, era um belo homem.
O povo o aclamou por sua beleza. Obaluaê ficou mais do que contente com a festa, ficou grato. E, em recompensa, dividiu com ela o seu reino. Fez de Oiá a rainha dos espíritos dos mortos.
Rainha que é Oiá Igbalé, a condutora dos eguns. Oiá então dançou e dançou de alegria. Para mostrar a todos seu poder sobre os mortos, quando ela dançava agora, agitava no ar o iruquerê, o espanta-mosca com que afasta os eguns para o outro mundo.
Rainha Oiá Igbalé, a condutora dos espíritos. Rainha que foi sempre a grande paixão de Omulu.
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi – 2001


Oya, Oya, olha ê!
Olha a Matamba de karoká zingue
Oya, Oya, Olha ê!
Olha a Matamba de Kakoká zingue ô

Iansã Maria Bethânia
"Para onde vai a minha vida e quem a leva?
Porque eu faço sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?"

Senhora das nuvens de chumbo
Senhora do mundo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Eu sou o céu para as tuas tempestades
Um céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou um céu para as tuas tempestades
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano
Dentro de mim, dentro de mim


http://www.vagalume.com.br/maria-bethania/iansa.html#ixzz179QOrvDk


OYÁ TETÊ
OYÁ TETÊ OYÁ
OYÁ TETÊ OYÁ
OYÁ TETÊ

OYÁ TETÊ
OYÁ TETÊ OYÁ
OYÁ TETÊ OYÁ
OYÁ TETÊ

Sempre me proteja minha mãe!!!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010


Mariwo
KÍNI L’O FÒNŞE
MÀRÌWÒ
O que estão fazendo?
É Marìwò












Kó si ewé kó sí òrìsà – sem folha não há òrìsà



O tema que vou abordar hoje é uma folha, o mariwô. É uma folha muito usada nos Candomblés em várias funções.
O primeiro registro visual do mariwô dentro das casas é a pequena “cortina” de sua folha usada nas portas e janelas das casas de santo. Este mariwô é um indicativo de que você está entrando em um espaço sagrado, é uma forma de mostrar a proteção do lugar e uma forma de afastar o mal.
O dendezeiro é uma árvore exemplo para os adeptos do Candomblé. Em sua formação ela nos oferece tudo, nada em sua essência é desprezada ou desperdiçada. De seu tronco se extrai o vinho de palma, bebida de Ogun, mas este mesmo tronco é o símbolo da matéria individualizada dos Orixás Funfun. De suas folha temos o mariwô, que alem de nos fornecer a proteção citada, veste Ogun e alguns outros orixás, como Oyá e até mesmo Oxalá, dono de boa parte do dendezeiro. Essa vestimento de Ogun é bem interessante, mas vejo em muitas casas o uso das folhas já “maduras”, bem verdes, quando o mais apropriado seria usar a folha dita espada, ou lança, de Ogum: a folha que ainda está por nascer, uma lança que está brotando no centro do tronco. Esta é a verdadeira folha que veste Ogun, pois é bem clara. Por fim, de suas nozes tira-se o óleo ou azeite do dendê e também se faz o opelê ifá, corrente divina com 16 nozes e que se usa pra consultar o oráculo. Existe muito mais coisas que se faz com essa árvore e com suas folhas e frutos, mas isso é assunto pra ser dito dentro de cada casa.
Segue alguns relatos e lendas a respeito.

biribiri bí ti màrìwò
Jé òsányìn wálè màrìwò
biribiri bí ti màrìwò
ba wá t’órò wa Şe màrìwò

Na escuridão. Màrìwò traz luz
Màrìwò deixe ÓSÁNYÌN ir para casa
Na escuridão. Màrìwò traz luz
Màrìwò ajude-nos com nossos projetos

“Ogun está ligado ao mistério das árvores, conseqüentemente à Oxalá. Seu "assento" está ao pé de um Igí-uyeuè (cajazeira) no Brasil, de um adàn, akòko ou Àràbà na Nigéria e no Daomé, e rodeado por uma cerca de peregun. Podendo também ficar ao pé do Igí-òpé (dendezeiro), cujo tronco simboliza a matéria individualizada dos funfun (orixás do branco, particularmente Oxalá), que as folhas brotadas sobre os ramos ou troncos, simbolizam descendentes e que o màrìwò é a representação mais simbólica de Ogún.












“Uma vez ao voltar de uma caçada Ogun estava com muita sede e não encontrou vinho de palma, zangou-se de tal maneira que irado subiu a um monte ou montanha e Xoroquê (gritou Ferozmente ou cortou cruelmente do alto da montanha ou monte), cobrindo-se de sangue e fogo e vestiu-se somente com o mariwo, esse Ogum furioso chamado agora de Xoroquê, foi para longe para outros reinos, para as terras dos Ibos, para o Daomé, ate para o lado dos Ashantis, sempre furioso, Guerreando, lutando, invadindo e conquistando. Com um comportamento raivoso que muitos chegaram a pensar tratar-se de Exu zangado por não ter recebido suas oferendas ou que ele tivesse se transformado num Exu (talvez seja por isso que chegue a ser tratado como sendo metade exu por muitos do candomblé). Antes que ele chegasse a Ire, um Oluwo que vivia lá recomendou aos habitantes que oferecessem a Xoroquê, um Aja (cachorro), Exu (inhame), e muito vinho de palma, também recomendou que, com o corpo prostrado ao chão, em sinal de respeito recitassem o seus orikis, e tocadores tocassem em seu louvor. Sendo assim todos fizeram o que lhes havia sido recomendado só que o Rei não seguiu os conselho, e quando Xoroquê chegou foi logo matando o Rei, e antes que ele matasse a população Eles fizeram o recomendado e acalmaram Xoroquê, que se acalmou e se proclamou Rei de Ire sendo assim toda vez que Xoroquê se zanga ele sai para o mundo para guerrear e descontar sua ira chegando ate a ser considerado um Exu e quando retorna a Ire volta a sua característica de Ogum guerreiro e vitorioso Rei de Ire.”


Akóro Ko l'axo
Màrìwò l'axo Ogún o!
Màrìwò
Akóro não tem roupas 
Màrìwò veste Ogún 
Màrìwò 



Ogún á Jô e màrìwò
Ogún Akòró e màrìwò 
Iwó a gba 'lé bg'ònà
Ogun á jó e màrìwò màá tú yeye

Ogún dançará com a fronde da palmeira, usada como sua roupa
Ogún Akòró, ele ocupará a casa e o caminho
Ogún dançará com a fronde da palmeira, fronde da palmeira cresça


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Oferenda animal

Nesta postagem de hoje venho falar de assunto super polêmico e portanto merecedor de muitos comentários e opiniões.
Falo da oferenda ritual de animais. Muito se diz, se fala, se alardeia, mas pouco se conhece do assunto. Até mesmo dentro de nossas casa vemos quem é a favor, contra ou então simplesmente tem um discurso moralizante de formação católica e incluindo o assunto no "dogma".
Minha opinião: não existe dogma no Candomblé. Temos erò, segredo, fundamento. tudo se aprende, só depende do seu tempo, da formação de seu Pai ou Mãe e principalmente da necessidade de se ensinar.
Nada no Candomblé, seja qual nação for, é transmitido sem necessidade. Não há motivo, não se faz. E é fazendo e participando que se aprende no Candomblé.
Segue um texto enviado por e-mail e que fala de um caso polêmico de mudanças ocorridas dentro do culto por uma Yialorixá que se abstém da oferenda de animais por ser vegetariana e defensora dos animais( pobres coitados). O texto que se segue é de autoria de Fabiola Colares, Nzungulê dia Nzambi, grande amiga e colaboradora eterna em minhas pesquisas e neste blog. Ela por si só já explica as razões de se preservar a oferenda animal, que muitos de nós ainda usa o termo "matança" ou "sacrifício", numa alusão direta a nossa cultura ocidental cristã e empregado errôneamente dentro do culto aos Orixás.


"Nossa Nzo (casa), busca as tradições do Candomblé, preservando nossos hábitos e costumes de maneira mais correta, ainda que muitos deles tenham sido perdidos devido à necessidade do segredo dos nossos cultos precisarem ser mantidos. No aprendizado, na doutrina que venho recebido desde que comecei a compreender algumas práticas, opino sobre o texto abaixo, dando o meu parecer, ainda que sem muita experiência. 

Acredito que toda religião, independente da prática, procura manter viva a prática desde que foi criada. Quando o tradicionalismo das práticas é alterado, concordo sim que uma nova religião, um novo culto, está nascendo. Não sou radical com o uso do livre arbítrio, mas acho absurda a afirmação da necessidade de alteração em prol da evolução de tradições do Candomblé. Será que daqui a algum tempo estarão oferecendo a Mutakalambo (Oxossi), o dono da caça, da fartura, oferendas feitas com carne de soja? De repente oferecerão a Nsumbu (Obaluaê) uma pipoquinha feita no microondas? Que tal um manjá com adoçante dietético e leite desnatado para Kaia (Iemanjá)? Sem falar que daqui uns dias serão capazes de oferecer a Njila uma farofinha feita com ração humana e óleo de girassol, substituindo o dendê e a cachaça, nada saudáveis diante à evolução da humanidade que vem buscando práticas mais adequadas à sua alimentação. Que eu tenha o discernimento para não infartar enquanto escrevo isso. Risos.
Ironias inevitáveis para o p ovo do Santo que sabe e procura deter os segredos do sacro ofício (e não sacrifício ao meu ver) das oferendas vivas aos Mikisi (Orixás), aprendi que quando uma vida oferecida em sacro ofício é dada, é porque existe uma troca de energia vital para que possamos nos mantermos vivos. Outra coisa, óbvia e evidente, por um acaso algum de nós, ditos evoluídos, temos por hábitos de nos alimentarmos de animais vivos? O alimento é sagrado, assim como a vida que o manteve na terra até que chegasse a hora de nos alimentarmos. Portanto, não recuso o livre arbítrio de absolutamente ninguém, mas questiono, defensora que sou da fé que me mantém viva, a qual cultuo através do Candomblé de Angola, que práticas contrárias às tradições religiosas do Candomblé sejam alteradas indiscriminadamente apenas para satisfazer a vida saudável dos zeladores ou seguidores do Santo. 

Fica registrada a minha opinião, respeitando aos mais velhos de todas as nações, m as não deixando de opinar, pois, ainda que eu não tenha hierarquia dentro da fé por ser muito jovem nas práticas dos rituais sagrados, Nzambi me deu a permissão de ser inteligente o suficiente e me orientar para uma casa de culto maravilhosa, com uma Mãe zelosa, para que eu, com o que me foi dado, defender como posso a minha religião e os preceitos ancestrais da mesma. 

Estou encaminhando este e-mail para os amigos e irmãos de fé porque sabemos muito bem o que nos liga aos preceitos do Candomblé de Angola, Ketu, Jeje, Efón..."

Atenciosamente,

Nzungulê diá Nzamb 


*a foto é de minha casa, dia do assentamento de Onilé, tirada após os pedidos e a oferenda feitos .

sábado, 27 de novembro de 2010

Pata de vaca – Abàfè

 Pata de vaca – Abàfè
Bauhinia forticata

 Essa é a que tem flor branca, muito usada em banhos para Obaluaiê e a rosa pra Oyá.
Em certas casas também se usa pra Yemanjá.

É da família das leguminosas e é amplamente usada em arborização de ruas nas cidades, pois alem de crescimento rápido floresce e dá belo aspecto às mesmas.


É também conhecida como bauínia, miroró, mororó, pata-de-boi, pata-de-burro, unha-de-anta e unha-de-vaca.

É uma folha de características femininas e seu elemento é Terra.

Indicações: É empregada nos tratamentos da diabetes. A casca é indicada para diabetes e as folhas como diurético. É diurética e expectorante




GUERÊ GUERÊ MEJÊ JÊ Ô
GUERÊ GUERÊ MEJÊ JÊ Õ, ALÁ ORIXÁ
KÉ DI MATÁ KÉ DI MOIÓ
KÉ DI MÁ ORIXÁ IÉ IÉ KANXOXÔ
AUÁDÊ ÓMÓ OBÁATALÁ





Piliostigma thonningii

Esta planta é o Abàfe original, na pesquisa de Pierre Verger, mas como suas folhas possuem as mesmas características da Bauínia, foi adaptada pelo povo do santo, como acontece com quase toda a flora usada nos ritos Nagô. Aqui temos uma noção da diferença observando as flores.




Infelizmente não encontrei a cantiga de encantamento desta folha, pois não tem uso litúrgico difundido e pode ter se perdido.

Este post é fruto de um pedido: Caio César, menino lindo do Ogun. Não é meu irmão de casa, mas é irmão de fé!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Epa Babá!!!


Porque os dois são meus amores eternos!!

MEU PAI REINARÁ!

Depois de um tempo sumido daqui eu retomo, devagar, a minha primeira proposta: escrever coisas sobre como é viver uma vida ligada aos Orixás, trocar idéias, receber criticas e sugestões.
Meu sumiço se deve em parte a uma insatisfação e em outra a um problema muito sério que pretendo começar a discutir aqui hoje.
O primeiro motivo é a insatisfação relacionada ao outro. Explico: quando me motivei a escrever aqui com esse propósito, me imbuí de um anseio que não se concretizou. Queria que aqui fosse um espaço pra discussão entre iguais: adeptos do Candomblé. Mas não vi isso acontecer. Veio de cara a decepção. Os poucos comentários que eu recebi foram de pessoas que são meus amigos, mas nenhum ligado diretamente a minha casa ou ao meu barracão. Amei de montão saber que tenho amigos que fiz há tempos e que ainda permanecem assim comigo. Mas eu queria mais.
O outro motivo de meu desaparecimento em quase tudo foi a depressão. Não estamos acostumados com esse mal. Não sabemos lidar com ele. Nem quem está dentro do problema e nem quem está fora dele. Tive grandes problemas e todos relacionados a depressão. Não tive quem pudesse me orientar, me dar uma força, estar perto de mim ou pelo menos ligar pum convite, que mesmo recusado poderia dar indícios do que estava passando. Ainda não saí disso, mas hoje eu penso mais tranquilamente em tudo isso e posso começar a ver que um certo equilíbrio está vindo. Mas ainda tenho medo de certas coisas e receio de certas atitudes das pessoas que se aproximam de mim.
Não sei dizer como isso começou, mas sei precisar quase que exatamente quando eu me afastei de tudo e de todos, inclusive de meus Orixás e de minha casa. Foi um erro? Não sei dizer, não agora. Sei que foi necessário e que continua sendo, acho que pra meu melhor equilíbrio.
Ouvi muito dizer que era agora que eu precisava de estar lá, com meu povo, com meus Orixás, tocando minha vida. Mas honestamente, quando se está assim a ultima coisa em que acreditamos é que a convivência pode fazer algo, que um ebó pode mudar as coisas, que um Bori vai nos fazer mais confiantes. A depressão se incumbe de nos tirar tudo, inclusive a possibilidade de ser ajudado. Como agir nessa hora? Como fazer quando vemos um amigo ou irmão assim? Conversas de telefone ou de Orkut? Nunca, são os piores caminhos. A esperança está no contato, no fato de sabermos que temos alguém, que temos suporte, não com frases lindas, mas com a realidade e a convivência.
Sou grato aos meus Orixás que puderam até agora me suportar e me sustentar.

É pra eles meu texto de hoje.

Axé Babá Mi!!!
Epa Babá!